Logística Reversa
A reciclagem também gera impactos ambientais negativos? Entenda por que o saldo é positivo
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Os impactos ambientais negativos da reciclagem de eletroeletrônicos, pilhas e baterias incluem o consumo de recursos na coleta, no transporte e no processamento. Entenda quando os impactos positivos superam os negativos.
A reciclagem também envolve processos industriais.
Eletroeletrônicos, pilhas e baterias precisam ser coletados e transportados. Os equipamentos passam por descaracterização e separação de componentes. Depois, os diferentes materiais seguem rotas específicas de tratamento e processamento.
Essas etapas consomem recursos, como combustíveis fósseis, água, energia elétrica e outros insumos. Por isso, reciclar não significa fazer os impactos ambientais negativos “desaparecerem”.
A vantagem aparece quando os impactos negativos evitados pela recuperação superam os impactos negativos necessários para produzir algo “do zero”.
Esse saldo positivo, porém, não é automático. Distâncias percorridas, eficiência dos processos, perdas, tecnologias empregadas e qualidade dos materiais recuperados também entram na conta. Veja como funciona.
Quais são os impactos negativos da reciclagem?
Eles existem porque há toda uma operação por trás do processo.
Depois do descarte, os resíduos são coletados e transportados até empresas especializadas. Nelas, os equipamentos são desmontados e separados em diferentes frações.
Em seguida, os materiais seguem para recicladores e podem passar por novos transportes e processos industriais.
Felizmente, existe uma forma de avaliar se todo esse processo “vale a pena”. É a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), sobre a qual já falamos aqui no blog.
Segundo definição da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), a ACV é uma ferramenta que pode ser usada para mensurar diferentes impactos ambientais, sejam eles positivos ou negativos, associados ao ciclo de vida de produtos, de processos ou atividades.
No contexto da logística reversa de eletroeletrônicos, pilhas e baterias, a ACV da Green Eletron mostra ambos os impactos gerados pelo sistema de maneira concreta. Em 2024, por exemplo (dado mais atual disponível), a manufatura reversa consumiu por tonelada destinada, em média, 30 kWh de eletricidade, 129 litros de água e 9 litros de diesel.
Esses consumos aparecem nos resultados da ACV. Coleta, transporte intermediário e manufatura reversa estiveram entre as principais fontes de impactos negativos da operação. Os efeitos apareceram especialmente em categorias como aquecimento global, combustíveis fósseis, formação de ozônio fotoquímico e uso da água.

Mas se reciclar gera impactos negativos, por que o saldo pode ser positivo?
Porque a ACV não contabiliza apenas aquilo que a reciclagem consome.
Ela também considera o que pode deixar de ser produzido a partir de fontes primárias e compara os impactos negativos necessários para recuperar os materiais com impactos positivos gerados quando eles retornam à cadeia produtiva.
Um exemplo ajuda a entender. Em 2024, mesmo após contabilizar os impactos ambientais negativos da operação, o balanço foi amplamente positivo. Naquele ano, a logística reversa evitou, por exemplo:
- 8.817 toneladas de CO₂ equivalente;
- 71,8 mil m³ de consumo de água;
- 133.411 GJ de consumo de combustíveis fósseis;
- 1.668 kg de antimônio equivalente (kg Sb eq.) em recursos minerais.
Na ACV, essa última unidade expressa o potencial de escassez dos recursos minerais em equivalentes de antimônio.
Esses resultados não significam, portanto, que coleta, transporte e processamento deixaram de consumir recursos, mas mostram outra coisa: os impactos positivos pela recuperação foram maiores do que os impactos negativos necessários para realizar a própria logística reversa.
Resultados assim também aparecem fora do sistema da Green Eletron.
Um estudo brasileiro realizado na região de Campinas e publicado no Journal of Cleaner Production avaliou a logística reversa de 3 mil toneladas de resíduos eletroeletrônicos. Para cada tonelada recebida, a eficiência foi de aproximadamente 85%. Os pesquisadores contabilizaram transporte, desmontagem e reciclagem, que são atividades que consomem recursos e energia. O resultado é que, ainda assim, os impactos positivos superaram os negativos, principalmente pela recuperação de metais e recursos minerais.
Transporte e eficiência podem diminuir ou aumentar os impactos positivos da reciclagem?
Podem, sim. A maneira como a reciclagem é realizada interfere diretamente em seu desempenho ambiental.
Um estudo sobre a regulamentação europeia de resíduos eletroeletrônicos, por exemplo, analisou refrigeradores, máquinas de lavar, televisores e computadores e mostrou que, dependendo do produto, da distância e da categoria analisada, o aumento do percurso pode reduzir parte dos ganhos ambientais do processo.
Isso não estabelece uma distância máxima universal, é claro. Mostra, porém, a importância do planejamento de rotas, da localização dos operadores e da consolidação dos resíduos.
A ocupação dos veículos também faz parte da eficiência ambiental da logística reversa, e a maneira como os eletroeletrônicos serão tratados e destinados também faz diferença.
Um estudo realizado em uma planta industrial italiana avaliou um sistema que processava aproximadamente 9,9 mil toneladas de resíduos eletroeletrônicos por ano e comparou dois cenários de tratamento. Dependendo da categoria de equipamento, as taxas de reciclagem variaram de 40% a 86% em um cenário. Já no outro, ficaram entre 80% e 99%.
Portanto, dizer apenas que determinado resíduo “foi reciclado” conta somente uma parte da história.

Saldo positivo significa benefício em todos os indicadores ambientais?
Não necessariamente.
A ACV trabalha com diferentes categorias porque não existe um único tipo de impacto ambiental. É possível avaliar aquecimento global, uso da água, combustíveis fósseis, acidificação, ecotoxicidade e toxicidade humana, entre outros aspectos.
Um processo pode apresentar bom desempenho em uma categoria e resultado menos favorável em outra. Um outro estudo italiano, agora sobre o sistema de gestão de resíduos eletroeletrônicos da Lombardia, ilustrou essa diferença. A pesquisa considerou coleta, transporte, tratamento, reciclagem e destinação final. Na maioria das categorias, os impactos positivos compensaram amplamente os impactos negativos do sistema.
A ACV da Green Eletron também segue essa lógica de avaliação multicritério.
Por isso, dizer que o sistema apresentou um balanço amplamente positivo não significa afirmar que toda etapa ou indicador tenha “impacto negativo zero”.
Todo material recebido precisa ser reciclado?
Na Green Eletron, o objetivo sempre é reciclar 100% e aterro zero, mas existem materiais para os quais não há tecnologia suficiente, ou misturas de materiais que não permitem uma separação adequada para se conseguir reciclar 100%. Neste caso, busca-se, então, o melhor resultado ambiental possível.
Um estudo no Journal of Hazardous Materials investigou, por exemplo, componentes plásticos em resíduos eletroeletrônicos. Os pesquisadores identificaram grande heterogeneidade na presença de bromo, que foi usado como indicador de retardantes de chama bromados. Por isso, separar determinadas peças ajuda a controlar substâncias restritas e a preservar a qualidade do plástico destinado à reciclagem.
Pilhas e baterias também não podem ser tratadas como se fossem um único material, porque diferentes composições exigem processos e rotas específicas de tratamento e recuperação. Na própria ACV de 2024, pilhas e baterias aparecem como fluxos separados e com diferentes eficiências de recuperação.
Por isso, é importante que triagem, rastreabilidade e operadores qualificados façam parte da reciclagem responsável. Vale o mesmo para a destinação ambientalmente adequada das frações que não podem retornar ao mercado.
A ACV da Green Eletron mostrou que nossa eficiência foi de 75%. Um resultado a comemorar.
Quando a reciclagem compensa ambientalmente?
Quando a cadeia recupera materiais com qualidade e eficiência suficientes para superar os impactos negativos gerados pela própria recuperação. Isso depende de coleta planejada, consolidação das cargas, transportes eficientes, operadores qualificados e tecnologias adequadas.
Também depende da separação de materiais que exigem tratamento específico, da redução das perdas e da qualidade das matérias-primas secundárias. Esses materiais precisam, de fato, substituir matérias-primas de fontes primárias.
Reconhecer que existem impactos ambientais negativos da reciclagem não enfraquece sua importância.
Pelo contrário, permite identificar onde estão os pontos de atenção do sistema e onde há espaço para melhorar. A questão, portanto, é saber se os impactos positivos comprovados superam os negativos necessários para obtê-los.
No sistema da Green Eletron, os resultados mostram que a resposta é positiva. 👍 ✅


