Entre Pontos

O ouro que temos nas mãos

3 min de leitura •

Retrato circular de Ademir Brescansin, gerente executivo da Green Eletron, usando terno escuro e camisa clara, com expressão sorridente e fundo desfocado de escritório, utilizado como imagem de perfil para artigo institucional da Green Eletron

 

por Ademir Brescansin*

Você sabia que um eletroeletrônico complexo, como o seu celular, pode conter até 60 elementos químicos da tabela periódica?

A informação, apresentada em um artigo de Irene Kitsara para a World Intellectual Property Organization – WIPO, convida à reflexão: se todos esses elementos fossem integralmente recuperados da “montanha” de celulares que caem em desuso todos os anos, quanto pouparíamos em recursos naturais? E, ao ampliar essa conta para outros equipamentos eletrônicos, qual seria o potencial total de recuperação?

No Brasil, a “montanha” é expressiva. O país é hoje o quinto maior gerador de lixo eletrônico do mundo e lidera o ranking na América do Sul, com cerca de 2,4 milhões de toneladas produzidas, segundo os dados mais recentes do The Global E-Waste Monitor.

Entre os elementos presentes nos eletroeletrônicos, destacam-se os metais preciosos. De acordo com o World Gold Council, a indústria eletrônica é a principal demandante de ouro. Em 2025, essa demanda ultrapassou 270 toneladas.

Além do ouro, outros metais valiosos estão presentes nos aparelhos, como prata, platina e paládio, assim como cobre, ferro/aço e alumínio. Esses materiais podem ser recuperados por meio de processos industriais de reciclagem, especialmente em fundições especializadas.

Embora os metais preciosos estejam presentes em quantidades bem menores do que outros metais, eles desempenham papéis fundamentais. O ouro, por exemplo, é altamente resistente à corrosão; a prata se destaca pela elevada condutividade elétrica; e o paládio é utilizado no controle do fluxo de energia em circuitos integrados. São propriedades que tornam esses materiais indispensáveis para o funcionamento dos dispositivos.

Como o volume desses metais em um único aparelho é pequeno, não tem como enriquecer com o ouro e a prata que existem no seu celular. No entanto, o impacto econômico em escala global, especialmente quando somado a outros metais, é significativo. Estima-se que o mundo perca cerca de US$ 37 bilhões por ano com as práticas atuais de gestão de resíduos eletrônicos.

Além disso, a questão não é apenas econômica. Do ponto de vista ambiental, a reciclagem se mostra mais eficiente do que a extração mineral. A US Environmental Protection Agency (EPA) cita que 1 tonelada de placas de circuito pode conter de 40 a 800 vezes mais ouro e de 30 a 40 vezes mais cobre do que 1 tonelada de minério nos Estados Unidos.

Esse cenário reforça o papel da mineração urbana, hoje reconhecida como componente essencial da economia circular, ao viabilizar a recuperação de recursos já disponíveis em produtos fora de uso.

Para que esse potencial se concretize, o descarte correto dos produtos eletroeletrônicos é necessário. Sistemas de logística reversa permitem que os eletroeletrônicos sejam recolhidos, encaminhados para triagem e desmontagem e, posteriormente, sigam para a reciclagem, garantindo o reaproveitamento dos materiais e sua reinserção na cadeia produtiva.

A Green Eletron, como entidade gestora de logística reversa de produtos eletroeletrônicos, pilhas e baterias, mantém mais de 11 mil pontos de coleta distribuídos em todo o Brasil, ampliando o acesso da população a esses sistemas e viabilizando o descarte ambientalmente adequado.

No fim, o “ouro” que temos nas mãos vai além do valor material. Ele representa uma oportunidade concreta de reduzir desperdícios, conservar recursos naturais e avançar em direção a um modelo de consumo mais sustentável.


* Gerente executivo da Green Eletron. Originalmente publicado no LinkedIn.

 

Imagem de capa: Green Eletron | Gerada por IA.