Entre Pontos
A reciclagem como estratégia econômica e de Estado
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por Ademir Brescansin*
Por muito tempo, a reciclagem foi enquadrada quase exclusivamente como uma questão ambiental. Não está errado, mas hoje talvez esse enquadramento esteja “pequeno”.
O mundo mudou, e a reciclagem de eletroeletrônicos, pilhas e baterias passou a ocupar um lugar que vai além da agenda ambiental. Atualmente, em um cenário de crescente disputa geopolítica por recursos, ela é também uma questão econômica, industrial e de segurança estratégica.
Como aponta o relatório Brasil na era dos minerais críticos: uma nova ordem energética, publicado pela consultoria PwC Brasil, a disputa global por minerais críticos, como lítio, cobalto, níquel e terras raras, está redesenhando a geopolítica do século XXI.
Esses são insumos fundamentais para chips de inteligência artificial, data centers e para baterias de veículos elétricos, painéis solares, turbinas eólicas e outras estruturas ligadas à transição energética.
Segundo a International Energy Agency (IEA), a demanda por minerais para tecnologias limpas pode quadruplicar até 2040. Por isso, a China já utiliza restrições de exportação de minerais críticos como instrumento de pressão geopolítica sobre os Estados Unidos e a União Europeia. Uma demonstração clara de que o acesso a esses recursos é uma questão de Estado.
O que isso tem a ver com a logística reversa de eletroeletrônicos, pilhas e baterias?
Bem, os equipamentos que descartamos no cotidiano, como celulares, notebooks, baterias e eletrodomésticos, concentram exatamente esses materiais. Ouro. Prata. Cobre. Cobalto. Níquel. Terras raras.
Quando eletroeletrônicos, pilhas e baterias são descartados de forma inadequada ou processados em centros ou locais não regulamentados, com operações irregulares de desmontagem e sem controle ambiental, os materiais valiosos que contêm podem se perder de maneira irreversível, pressionando a extração primária na natureza.
Quando, porém, há um sistema de logística reversa com reciclagem adequada, eles podem retornar à cadeia produtiva e reduzir a dependência de extração de matérias-primas virgens num momento em que o acesso a esses recursos está no centro da competição global.
Isso é o que o setor chama de mineração urbana, que hoje pode ser tão estratégica quanto a mineração convencional para a economia e para as políticas de Estado.
O Brasil, segundo os últimos dados do Global E-Waste Monitor, produz mais de 2,4 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos por ano, mas ainda aproveita pouco o potencial econômico desse volume. Parte significativa dos equipamentos, pilhas e baterias sem utilidade sequer são descartados nos pontos adequados. Na Green Eletron, temos trabalhado para reverter esse quadro, por meio do nosso sistema de logística reversa, com pontos de coleta distribuídos em todo o território nacional, além da ampliação de parcerias institucionais e campanhas de recolhimento.
Existe um argumento que precisa entrar com mais força no debate público brasileiro: a logística reversa de eletroeletrônicos não é apenas uma obrigação regulatória prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos. Ela é, também, uma política industrial. Cada tonelada de resíduo eletroeletrônico que não entra na cadeia de reciclagem é uma tonelada de material estratégico que o Brasil perde duas vezes: no descarte e numa maior dependência da importação de matérias-primas que vêm da extração primária.
Transformar esse cenário exige que indústria, gestores de logística reversa, poder público e consumidores atuem de forma coordenada. A infraestrutura existe. O que precisamos é reconhecer, coletivamente, que usá-la da forma adequada não faz bem só para o meio ambiente, mas para a economia e para a política externa, também.
* Gerente executivo da Green Eletron. Originalmente publicado no LinkedIn.
