Vozes da Sustentabilidade
Gabriella Camilo, da ABINEE, destaca o papel da indústria de eletroeletrônicos no combate à poluição e no avanço da logística reversa
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Formada na área ambiental e atuante em sustentabilidade desde 2011, Gabriella Camilo construiu sua trajetória em pesquisa e em empresas nacionais e multinacionais de diferentes segmentos.
Sua experiência na Green Eletron e, posteriormente, na ABINEE permitiu-lhe conhecer de perto as particularidades do setor eletroeletrônico e ampliar sua visão sobre sustentabilidade a partir de uma perspectiva setorial.
Nesta edição de Vozes da Sustentabilidade, Gabriella aborda a evolução da logística reversa no Brasil, os desafios de isonomia e fiscalização e o papel da indústria na redução dos impactos ambientais.
1. Você poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória profissional? Qual foi o caminho percorrido até o seu cargo atual e de que forma ele se conecta com sustentabilidade?
Desde o início da minha carreira, venho atuando na área de sustentabilidade. Minha trajetória permitiu conhecer diferentes modelos de negócio, culturas organizacionais e desafios relacionados à sustentabilidade.
Até então, eu ainda não havia tido a oportunidade de atuar diretamente junto ao setor eletroeletrônico. Essa oportunidade surgiu por meio da Green Eletron, como entidade gestora, e posteriormente da ABINEE, como entidade representativa do setor. Essa experiência foi muito enriquecedora, pois me permitiu conhecer de perto as particularidades e os desafios do setor e, ao mesmo tempo, ampliar minha visão sobre sustentabilidade a partir de uma perspectiva setorial.
A atuação na ABINEE também me proporcionou um importante aprendizado sobre representação setorial e sobre o papel estratégico de uma entidade na defesa dos interesses e no fortalecimento dos setores elétrico e eletrônico no Brasil. Foi uma oportunidade de acompanhar de perto as demandas do setor e compreender melhor a importância do diálogo e da articulação entre empresas, governo e demais atores envolvidos nas questões relacionadas à sustentabilidade.
Olho para minha trajetória como uma construção contínua, em que cada experiência trouxe novos aprendizados e contribuiu para ampliar minha visão sobre sustentabilidade. As diferentes vivências ao longo da carreira me permitiram desenvolver um olhar cada vez mais amplo sobre o tema.
2. Como a ABINEE interpreta a legislação de logística reversa no Brasil? Quais são os principais desafios e oportunidades para o setor nesse contexto?
A ABINEE acompanha as discussões sobre logística reversa no Brasil e delas participa ativamente desde a época em que a Política Nacional de Resíduos Sólidos ainda tramitava como projeto de lei. Ao longo dessa trajetória, a entidade também participou das discussões que resultaram no Acordo Setorial Federal de Logística Reversa de Produtos Eletroeletrônicos, assinado em 2019 e posteriormente regulamentado pelo Decreto Federal nº 10.240/2020.
Como parte dessa atuação, em 2016, a ABINEE criou a Green Eletron, entidade sem fins lucrativos criada com o objetivo de implementar e operacionalizar um sistema coletivo de logística reversa de eletroeletrônicos em âmbito nacional, contribuindo para que as empresas associadas cumpram as metas estabelecidas pela legislação federal.
É importante destacar que o setor já vinha se mobilizando em torno da logística reversa antes mesmo da assinatura do Acordo Setorial, em 2019. A criação da Green Eletron é um exemplo concreto dessa mobilização e demonstra o compromisso do setor com o desenvolvimento e a implementação de soluções para a logística reversa. Desde então, essa atuação vem evoluindo, com o setor alcançando e superando as metas estabelecidas pela legislação.
Entre os principais desafios, destaco a necessidade de maior isonomia entre todos os atores envolvidos na cadeia, considerando que a logística reversa é um trabalho conjunto que envolve fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes e consumidores, com responsabilidades compartilhadas entre esses diferentes agentes. Nesse contexto, é fundamental garantir que cada elo da cadeia cumpra efetivamente suas responsabilidades, acompanhado de uma fiscalização mais efetiva, de forma a assegurar condições equilibradas de concorrência e a efetividade da logística reversa.
Como oportunidade, destaco o próprio crescimento e a consolidação da logística reversa no Brasil, que representam um avanço importante para o setor eletroeletrônico. A experiência acumulada e os resultados alcançados ao longo dos anos criam uma base sólida para continuarmos avançando, ampliando a recuperação e o reaproveitamento de materiais e fortalecendo a economia circular, com sistemas cada vez mais eficientes e estruturados.
3. Qual é o papel da indústria no combate à poluição? Quais iniciativas estão sendo realizadas pelo setor para reduzir os impactos ambientais?
A indústria tem um papel fundamental no combate à poluição, não apenas pela redução dos impactos ambientais de suas próprias atividades, mas também pela capacidade de desenvolver soluções, influenciar cadeias produtivas e contribuir para a construção de políticas públicas e de um modelo de desenvolvimento mais sustentável.
Nesse contexto, a ABINEE exerce um importante papel de representação do setor elétrico e eletrônico no Brasil, estimulando o desenvolvimento competitivo do setor e incorporando a sustentabilidade às discussões estratégicas. Em 2017, a entidade tornou-se signatária do Pacto Global das Nações Unidas (ONU), assumindo o compromisso de incorporar os dez princípios universais relacionados aos direitos humanos, aos direitos do trabalho, à proteção do meio ambiente e ao combate à corrupção em sua atuação. Esse compromisso está alinhado aos valores da ABINEE e reforça seu papel de estimular as empresas do setor a avançarem nessa agenda.
Na agenda ambiental, o Departamento de Sustentabilidade da ABINEE participa ativamente de discussões, fóruns e iniciativas voltadas à prevenção e à redução dos impactos ambientais.
Entre as principais iniciativas e frentes de atuação, destacaria a participação no Fórum Nacional de Economia Circular e nas discussões sobre quatro temas: o Tratado Global contra a Poluição Plástica; o Decreto Federal nº 12.688/2025, que institui o sistema de logística reversa de embalagens de plástico; o Decreto Federal nº 10.240/2020, relativo à logística reversa de produtos eletroeletrônicos de uso doméstico e seus componentes; e a Resolução CONAMA nº 516/2026 (RoHS Brasileira).
Essas iniciativas demonstram que a atuação da indústria vai além do atendimento às exigências regulatórias. Existe também a oportunidade de antecipar discussões, contribuir tecnicamente para a construção de políticas públicas e estimular a adoção de práticas mais sustentáveis em toda a cadeia.
4. Para quem deseja ingressar nesta área com foco em sustentabilidade, quais habilidades e conhecimentos você considera essenciais?
Para quem deseja ingressar na área de sustentabilidade, acredito que é importante construir uma boa base técnica, mas também buscar experiências diversas que permitam conhecer diferentes negócios, setores e desafios. A sustentabilidade é uma área muito ampla e, por isso, ter uma visão abrangente faz muita diferença.
Além do conhecimento técnico, considero essenciais a visão de negócio, a capacidade de comunicação e articulação, o pensamento crítico e, principalmente, a disposição para aprender continuamente. Ao longo da minha trajetória, a experiência em diferentes empresas e segmentos e, posteriormente, em entidades como a Green Eletron e a ABINEE, mostrou-me também a importância de ouvir diferentes perspectivas, dialogar e entender que os desafios de sustentabilidade muitas vezes exigem uma atuação conjunta e multidisciplinar.


