Vozes da Sustentabilidade

Henrique Mendes, da ABRAMAR, defende a manufatura reversa como base para estruturar a economia circular no Brasil

12 min de leitura •

Presidente da Associação Brasileira de Manufatura Reversa e Reprocessamento (ABRAMAR), Henrique Mendes atua há mais de uma década na interface entre sustentabilidade, regulação e operação da logística reversa no Brasil.

Com formação em bioquímica e especialização em gestão ambiental, construiu sua trajetória acompanhando desde projetos de mercado de carbono até as negociações do Acordo Setorial para a Logística Reversa de Eletroeletrônicos, que culminou no Decreto Federal nº 10.240/2020.

Nesse percurso, transitou entre o ambiente institucional e o operacional, desenvolvendo uma visão integrada dos desafios e das oportunidades da cadeia de eletroeletrônicos no país.

Hoje, na ABRAMAR, Henrique atua na estruturação e na formalização do setor de manufatura reversa e compartilha sua experiência e análises conosco.

1. Você poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória profissional? Qual foi o caminho percorrido até o seu cargo atual e de que forma ele se conecta com sustentabilidade?

Sou formado em bioquímica e, logo que me formei, já comecei a migrar para a área de sustentabilidade e gestão ambiental. Fiz um MBA em gestão ambiental, e ali comecei a conhecer o setor e atuar em um projeto que identificava melhores práticas ambientais, disponibilizando um enorme acervo de cases práticos para a indústria nacional, promovendo um verdadeiro benchmarking ambiental brasileiro.

Na sequência, fui trabalhar em uma empresa de consultoria em gestão de emissões de gases de efeito estufa, atuando com projetos de inventário de emissões de gases de feito estufa, créditos de carbono e neutralização de emissões em eventos e empresas.

O próximo passo nessa trajetória foi quando entrei para a Abinee, no Departamento de Sustentabilidade, onde também aproveitei para fazer o mestrado, aprofundando a atuação em logística reversa, que já era o principal foco naquele momento.

Dentro do departamento, a maior parte do trabalho estava concentrada nas negociações do acordo setorial de logística reversa e na gestão do sistema de pilhas já existente. Isso acabou me aproximando muito do tema, inclusive no mestrado, em que analisei esses modelos e propus caminhos possíveis para evolução.

Também participei, desde o início, da criação da Green Eletron, acompanhando de perto os desafios da estruturação do sistema. Em determinado momento, surgiu a oportunidade de ir para o lado operacional, em uma empresa de reciclagem e manufatura reversa de eletroeletrônicos.

Essa transição foi importante porque me tirou um pouco do campo técnico e institucional e me levou para uma atuação mais prática, mais “pé no chão”. Isso ajudou a entender melhor os dois lados, o regulatório e o operacional, inclusive as dificuldades reais de implementação e a concorrência desleal que existe no setor.

Essa visão mais completa foi o que também levou à criação da ABRAMAR. A partir do entendimento de como as demandas são construídas e levadas de forma coletiva, surgiu a necessidade de estruturar uma associação que representasse o setor de manufatura reversa.

A principal premissa sempre foi a formalização da atividade e a construção de regras mais claras para o setor.

Hoje, continuo tanto atuando na operação, em uma empresa de manufatura reversa de eletrônicos, quanto à frente da ABRAMAR, trabalhando para estruturar esse setor e ampliar o entendimento sobre atividades como remanufatura e recondicionamento.

A ideia é justamente contribuir para o desenvolvimento de um novo setor econômico, mais estruturado e mais consistente.

2. Como a Associação interpreta a legislação de logística reversa no Brasil? Quais são os principais desafios e oportunidades nesse contexto?

Quando falamos de desafios e oportunidades, o ponto central para nós hoje é a formalização da atividade de manufatura reversa e remanufatura. Esse é o principal objetivo da ABRAMAR.

Nós enxergamos isso como uma grande oportunidade, tanto para as empresas quanto para o país, porque, no nosso entendimento, a manufatura reversa é uma forma de aprimorar a gestão dos resíduos eletrônicos, mudando o cenário de como isso era feito antes da legislação, para um modelo mais estruturado, seguro e eficiente. Muito mais próximo da lógica de mineração urbana.

Estamos falando da recuperação de materiais essenciais para a indústria, que, quando tratados de forma adequada, já entram na cadeia com menor impacto ambiental, menor consumo de energia e menor emissão de substâncias potencialmente nocivas.

Isso gera emprego qualificado, gera insumo para a indústria e uma matéria-prima de menor impacto ambiental. Então, por si só, este já é um setor que deveria ser reconhecido como “verde” e sustentável, portanto deveria ser mais estimulado.

Para que isso aconteça, a regra precisa estar clara. O que é, de fato, manufatura reversa? O que uma empresa precisa demonstrar para estar habilitada a operar com segurança e qualidade? Sem isso, abre-se espaço para práticas incompletas ou inadequadas.

Hoje, a ABRAMAR tem atuado nesse sentido, dialogando com indústria, fabricantes, governo, agências ambientais, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do ClimaMinistério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e IBGE para estruturar essa base. Um exemplo é a criação de um CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) específico para o setor, que permita gerar dados confiáveis sobre quantas empresas realmente operam nesse modelo no Brasil.

Também estamos trabalhando com órgãos ambientais para discutir critérios de licenciamento mais adequados, considerando riscos como emissões de gases e particulados, fluidos perigosos e processamento inadequado de resíduos.

Esse ainda é um desafio importante. Observamos no setor uma busca por simplificação do processo de logística reversa (na busca por redução de custos) que, em alguns casos, leva à banalização do tratamento dos eletroeletrônicos, ignorando riscos para o meio ambiente e para as pessoas.

Por isso, é importante reforçar que já existe uma forma correta de fazer. A própria ABRAMAR participou da construção de uma norma técnica da ABNT específica para manufatura reversa de eletroeletrônicos, que estabelece um passo a passo claro para a atividade, além de já existirem outras normas internacionais também focadas nesta atividade.

Trata-se de qualificar o mercado, não de restringi-lo. A ideia é ampliar o número de empresas capacitadas em todas as regiões do país.

Quando, porém, se trata do descarte de eletroeletrônicos, ainda existe hoje uma distorção relevante. Muitas empresas (e até entes públicos) priorizam a recuperação de valor no curto prazo, optando por fazer leilões de venda destes equipamentos inservíveis, ao invés de contratar um serviço adequado para assegurar o manuseio correto e destinação adequada.

Isso gera uma concorrência desleal uma vez que empresas de manufatura reversa buscam atuar dentro de toda a legislação aplicável, incluindo as normas de segurança do trabalho, enquanto que empresas que atuam neste setor “informal” não se preocupam em seguem requisitos mínimos de segurança, rastreabilidade ou normas técnicas.

Obviamente haverá uma disparidade dos custos de operação, assim como nas eventuais receitas obtidas ao final do processo. Isso sem contar nos casos em que a empresa acredita que seus equipamentos serão descaracterizados e os resíduos reciclados, enquanto esses compradores na realidade estão revendendo estes eletrônicos para mercados secundários, sem o conhecimento ou consentimento do dono anterior das máquinas.

Essa lógica também se reflete na remanufatura e no recondicionamento, que ainda enfrentam confusão com reparo e informalidade, prejudicando a imagem do setor.

Quando bem-feita, a remanufatura é uma atividade industrial de alta qualidade, com responsabilidade sobre o produto e garantia ao consumidor, a um custo mais acessível.

Esse é um mercado com grande potencial de crescimento, que depende de mais transparência, informação e confiança.

3. Como a ABRAMAR tem ajudado a estruturar a governança ambiental e a gestão da logística reversa?

Pensando no papel da ABRAMAR na estruturação desse ambiente, grande parte do nosso trabalho está na representação institucional e no letramento sobre esses conceitos. Ainda existe muito desconhecimento e confusão entre os diferentes modelos, e nós atuamos para tornar isso mais claro e estabelecer regras mais bem definidas.

Com regras claras, as empresas passam a ter mais segurança para investir e estruturar operações em diferentes regiões. Em ambientes de incerteza, onde resultados simplificados são aceitos, não há viabilidade para o desenvolvimento de novas plantas no Brasil.

Nesse cenário, operações que seguem critérios técnicos rigorosos acabam concorrendo com resultados de baixa qualidade, enquanto o processo correto é tratado apenas como custo.

Nosso esforço tem sido elevar esse debate e reforçar o papel da Política Nacional de Resíduos Sólidos como instrumento de transformação.

A proposta é avançar para um modelo estruturante, atrelado à políticas industriais, com foco total em rastreabilidade, qualidade e segurança, permitindo o desenvolvimento de um setor econômico mais consistente, com geração de empregos qualificados e oferta de insumos circulares para a indústria.

Já existem sinais positivos nesse movimento, e o Brasil começa, inclusive, a servir de referência para outros países.

4. Qual o papel da economia circular nesse contexto e como ela tem sido incorporada na prática?

Quando falamos de economia circular, a manufatura reversa e a remanufatura são, na prática, modelos de negócio integralmente baseados nesse conceito.

Quando bem executada, a manufatura reversa permite a recuperação de materiais que retornam à cadeia produtiva como insumos, evitando a extração de matéria prima virgem do meio ambiente, e recuperando o valor dos resíduos que poderiam se tornar rejeitos em um processo de tratamento inadequado.

Para que isso funcione, é fundamental que exista uma cadeia completa e rastreável. O valor está em garantir que cada fração gerada no processo seja corretamente destinada a recicladores especializados, fechando o ciclo de forma adequada.

Já sobre a Remanufatura, ainda há desafios relacionados à percepção de qualidade dos produtos e confiabilidade quanto a segurança e procedência destes equipamentos, o que exige maior esforço de comunicação e transparência.

O papel do governo é central nesse processo. O setor público pode induzir essa transformação ao adotar critérios mais rigorosos de descarte de seus próprios ativos eletroeletrônicos e ao priorizar a contratação de empresas habilitadas para participar de eventuais leiloes para venda destes equipamentos. Além disso, o governo poderia dar preferência à compra de equipamentos remanufaturados, gerando economia aos cofres públicos e acelerando o avanço deste modelo de negócio circular.

A consolidação dessa transição para uma Economia Circular depende de regras claras, confiança e alinhamento entre os diferentes atores do sistema.

5. Na economia circular, a reciclagem de aparelhos como celulares e notebooks é especialmente relevante por concentrar metais valiosos. Como a logística reversa tem contribuído para a recuperação desses materiais no Brasil?

Para que a recuperação desses materiais aconteça de forma efetiva, é preciso primeiro termos requisitos mínimos para habilitação das empresas de manufatura reversa, dessa forma teremos a possibilidade de estruturar uma cadeia completa de rastreabilidade ao longo de todo o fluxo. Tratar a logística reversa de eletrônicos apenas como um relatório de movimentação de notas fiscais não gera adicionalidade nem ganho real.

O valor está no desenvolvimento da cadeia como um todo. Após o processamento pela empresa de manufatura reversa, cada fração precisa ser destinada corretamente a recicladores especializados, incluindo minerais críticos e materiais como ferro, plástico, alumínio, vidro e cobre, garantindo que esses materiais retornem à indústria de forma qualificada.

Esse processo depende da formalização e da definição de critérios técnicos para as empresas que atuam no setor. Sem isso, os ganhos esperados em termos de recuperação de materiais e eficiência ambiental não se concretizam.

Dentro dessa lógica, a remanufatura também tem um papel relevante, por atuar antes da reciclagem. Na remanufatura o equipamento mantém sua função original, após realizado um processo industrial, controlado, que permite que o produto retorne ao mercado em condição equivalente à de novo e preservando seu valor de uso por mais tempo.

Em uma visão mais ampla, o setor de logística reversa de eletroeletrônicos no Brasil já apresenta avanços importantes. Ao longo dos últimos anos, houve evolução desde a construção do Acordo Setorial até sua consolidação como decreto, além do amadurecimento das operações ao longo dos ciclos mais recentes.

Esse processo trouxe aprendizados relevantes e contribuiu, inclusive, para o surgimento de iniciativas como a própria ABRAMAR, que nasce a partir dessa necessidade de estruturar melhor o setor.

Existe hoje uma oportunidade concreta de consolidar esse avanço e direcionar o sistema para um modelo efetivo de economia circular, com potencial de servir de referência para outros países.

O país já conta com experiências relevantes, inclusive em outros setores, como o desmonte de veículos, que também lidam com equipamentos complexos e múltiplos materiais e já incorporam uma lógica mais estruturada de rastreabilidade e exigência de cadastro prévio das empresas qualificadas para realizar a desmontagem, segregação e destinação dos materiais. Este é o exemplo que o setor de eletroeletrônicos deveria seguir.

O Brasil começa, então, a ser observado por outros mercados que estão estruturando seus sistemas. O momento é de expansão de um ecossistema de soluções circulares, com oportunidades para novos negócios, tecnologias e modelos operacionais.

O desafio está em garantir que esse crescimento ocorra com base em qualidade, rastreabilidade e critérios técnicos, assegurando ganhos ambientais, econômicos e sociais consistentes.