Vozes da Sustentabilidade
Lissandra Palheta Cordeiro, da Lorenzetti, analisa a logística reversa como estratégia corporativa e comenta o papel das mulheres na gestão ambiental
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Engenheira Ambiental da Lorenzetti desde 2013, Lissandra Palheta Cordeiro construiu uma trajetória sólida na gestão ambiental, sustentabilidade e regulação, com mais de 30 anos de atuação.
Com formação em Engenharia Ambiental, Tecnologia de Saneamento Ambiental e Técnica em Edificações, acumula especializações em logística reversa, legislação ambiental, resíduos sólidos e ESG (Environmental, Social, and Governance), além de atuação ativa em comitês técnicos de entidades como ABNT, ABINEE, CIESP, CNI e FIESP.
Atualmente Vice-Presidente da Associação de Engenharia Ambiental e Sanitária do Estado de São Paulo, Lissandra conversou com a Green Eletron sobre logística reversa, gestão ambiental e o papel estratégico das mulheres no setor.
1. Você poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória profissional? Qual foi o caminho percorrido até o seu cargo atual e de que forma ele se conecta com sustentabilidade?
Minha trajetória se iniciou diante da minha cultura e origem. Ser amazonense e descendente de indígenas traz toda uma essência de preservar. Ser mulher também! Tenho muitas histórias de superação e conquistas, como muitas mulheres na engenharia. Isso, por si só, já daria outra entrevista com direito a podcast.
Minha carreira se iniciou em 1993 e veio “junto e misturado” com a constituição da família, casamento, 2 filhos, 1 curso técnico, 2 faculdades e muitas especializações… e estudo constante e contínuo. Com tudo isso, posso afirmar que a articulação entre engenharia, indústria, responsabilidade ambiental e gestão de pessoas faz parte de toda a minha jornada profissional.
Ao longo dos anos, atuei na estruturação de processos de gestão ambiental, conformidade regulatória, organização de dados e melhoria contínua, especialmente em temas como resíduos sólidos, sustentabilidade, atendimento às exigências legais e programas socioambientais. Passei pelos segmentos de construção civil e indústria nas esferas privadas e públicas.
Meu cargo atual é resultado dessa evolução técnica, estratégica e humana. Iniciei como técnica em edificações, trabalhando em obras de construção civil, um dos maiores desafios de uma garota de 22 anos, solteira e com uma garotinha de 2 anos para criar e amar. Isso na década de 1990. Supervisionar obras e elaborar orçamentos me trouxe os primeiros métodos de organização de rotinas e controles e, gradualmente, passei a atuar de forma mais integrada à governança e às tomadas de decisão após a conclusão de cada graduação.
Há 13 anos, atuo diretamente na indústria e sustentabilidade, e o trunfo das indústrias é não tratarem sustentabilidade apenas como conceito. Para ter a sustentabilidade eficiente, precisa haver método, interpretação de normas, estruturar processos, ter dados, gerar evidências e consolidar melhorias. É assim que ela deixa de ser discurso e passa a ser gestão. E sustentabilidade precisa de governança ativa para acontecer.
2. Como a sua empresa interpreta a legislação de logística reversa no Brasil? Quais são os principais desafios e oportunidades para o negócio nesse contexto?
A logística reversa é um instrumento da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e representa um dos mecanismos centrais para viabilizar o princípio da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos.
Portanto, ela deve ser compreendida como política pública estruturante, não como exigência acessória as empresas. Na Lorenzetti, tratamos a logística reversa como parte da gestão ambiental e da gestão de riscos regulatórios. Ela exige planejamento, rastreabilidade, evidências documentais e alinhamento estratégico com compliance e sustentabilidade corporativa.
No entanto, entre os principais desafios, destaco a complexidade do cenário regulatório brasileiro e, especialmente, a ausência de isonomia que ainda persiste entre os estados brasileiros na forma de exigência e fiscalização, o que gera assimetrias operacionais e insegurança jurídica: as empresas que atuam em diferentes estados precisam cumprir exigências distintas, mesmo submetidas à mesma política nacional.
Além disso, há também diferenças no nível de exigência aplicado a fabricantes nacionais e importadores, que é uma realidade que impacta a equidade concorrencial e a previsibilidade do sistema. Sou muito crítica quanto a esta questão. Essa ausência de padronização de fiscalização entre estados e entre fabricantes e importadores gera diferenças práticas no cumprimento das obrigações, aumentando custos, concorrência injusta, complexidade jurídica e insegurança regulatória.
Existe, porém, um lado bom que está em ascensão e amadurecimento contínuo. Há oportunidades relevantes, como o amadurecimento da gestão ambiental, fortalecimento institucional da empresa, maior controle sobre o ciclo de vida dos produtos e avanço concreto na economia circular. Quando estruturada com método e indicadores, a logística reversa deixa de ser apenas obrigação e passa a ser instrumento estratégico de posicionamento, imagem, segurança de marca e sustentabilidade empresarial.
3. Como a parceria com a Green Eletron tem contribuído para que a sua empresa fortaleça sua governança ambiental e atenda às exigências regulatórias para o descarte correto de seus produtos?
A parceria com a Green Eletron tem contribuído para dar maior consistência e segurança técnica ao atendimento das exigências regulatórias relacionadas ao pós-consumo dentro do sistema jurídico e operacional.
Ela nos auxilia a estruturar melhor a operacionalização da logística reversa, aprimorar a rastreabilidade, organizar as evidências documentais e facilitar processos de auditoria e prestação de contas. Isso se traduz em maior previsibilidade de alinhamento do budget anual e eficiência no cumprimento das obrigações legais.
Além disso, a parceria contribui para transformar uma exigência normativa em sistema estruturado de gestão, com indicadores, controles e transparência, que são elementos essenciais para uma governança ambiental mais sólida. A Green Eletron atua com muita eficiência nas informações técnicas e jurídicas com as empresas associadas junto aos órgãos reguladores.
4. Para quem deseja ingressar nesta área com foco em sustentabilidade, quais habilidades e conhecimentos você considera essenciais?
A primeira habilidade essencial é saber fazer gestão. Gestão de pessoas, de processos, de riscos e, principalmente, dos negócios da empresa.
A sustentabilidade não pode ser tratada como área isolada ou apenas técnica. Ela precisa estar integrada à estratégia corporativa. É necessário compreender que existe uma dimensão voltada ao mercado e à gestão de riscos, muitas vezes associada ao olhar ESG, mas ESG e sustentabilidade não são a mesma coisa!
A sustentabilidade tem uma dimensão interna, que envolve administração estratégica, inovação, melhoria de processos e geração de valor para a organização. A técnica ambiental é fundamental, mas ela, sozinha, não sustenta a atuação profissional. O diferencial está na capacidade de transformar conhecimento técnico em direcionamento estratégico: estruturar indicadores, influenciar decisões, dialogar com a liderança e conectar sustentabilidade ao desempenho do negócio.
Quem deseja atuar nessa área precisa entender esse equilíbrio entre conformidade e competitividade, entre gestão de risco e geração de valor. Sustentabilidade, hoje, é posicionamento estratégico. Como sempre digo muitas vezes: “precisamos ser menos engenherês” e mais gestores para sermos efetivos e trazermos resultados.
5. Como mulher em posição de liderança em uma indústria de grande porte, como você avalia o papel das gestoras na economia circular e governança ambiental? Que avanços e desafios as mulheres em posições estratégicas no setor têm experienciado nos últimos anos, na sua percepção?
Economia circular e governança ambiental não se sustentam em discurso. Exigem visão sistêmica, disciplina de execução e capacidade de integrar estratégia, operação e risco. É nesse ambiente que a liderança faz diferença independentemente do gênero, e isso faz a diferença.
A presença feminina em posições estratégicas tem contribuído para ampliar a qualidade das decisões, fortalecer a governança e trazer maior consistência à implementação das agendas ambientais. Mulheres na indústria não ocupam espaço apenas como símbolo de diversidade, mas como gestoras capazes que estruturam processos, consolidam indicadores e sustentam resultados no longo prazo.
Apesar dos avanços relevantes na ampliação da participação feminina em áreas técnicas e decisórias, ainda persistem desafios associados a estruturas historicamente consolidadas. Esses contextos, formados majoritariamente sob lideranças masculinas, acabam exigindo das mulheres desempenho elevado e validação constante de competência. Esse é um ponto que precisa evoluir institucionalmente.
No entanto, pela vivência que tenho na indústria, percebo que essa transformação já está em curso. Além das próprias mulheres que hoje são referências de liderança, nossos maiores aliados nesse processo têm sido gestores que compreendem que homens e mulheres são igualmente capazes ainda que tenham trajetórias culturalmente distintas. Reconhecer essas diferenças históricas sem transformá-las em barreiras é parte da maturidade organizacional. E empresas que avançam nessa compreensão fortalecem e ampliam a mudança, valorizam seu capital humano e tomam decisões mais equilibradas e estratégicas.
O cenário geral é de evolução constante. A presença feminina na área técnica, gestão ambiental e na indústria tem-se mostrado estratégica para conectar performance empresarial, responsabilidade regulatória e visão de futuro. Não se trata apenas de ampliar representatividade, mas de elevar o padrão de gestão. E empresas que compreendem isso saem na frente.


